Drauzio Varella corre na Praça Charles Miller, no Pacaembu

Por Rodolfo Lucena

Folha de São Paulo – 24/05/2015

O doutor Drauzio Varella está ferido. Atingido por uma lesão, não consegue correr. Quando o pé esquerdo toca o chão para dar impulso e fazer o corpo voar, sente um choque. Se tenta insistir, a intensidade do sofrimento aumenta, às vezes o pé chega a ficar dormente.

“Fico mais infeliz”, reclama o médico, que é um experiente maratonista e há mais de 20 anos inclui a corrida na sua movimentada rotina –atua como voluntário em presídios, atende em seu consultório três dias por semana, faz gravações para a TV Globo e é colunista da Folha.

Nesses dias sem atividade física, chega a sentir angústia quando vê alguém treinando pelas ruas da cidade, conta. “Sem a corrida, eu fico fisicamente pior. Fico achando que meu corpo não está legal, que eu não estou legal também, me dá um pouco de agitação.”

Quando corre, fica mais tranquilo: “Saio super disposto para o trabalho. E correr também me dá otimismo, dá sensação de que você é capaz de resolver todos os problemas que aparecerem”.

São essas sensações que ele trata de transmitir ao longo de “Correr”, seu 13º livro –começou com “Estação Carandiru”, lançado em 1999 e logo alçado a best-seller.

Ao longo de todo esse tempo, correu pelo menos uma maratona por ano –hoje tem 20 no currículo, incluindo oito edições da de Nova York e duas em Boston, a mais tradicional e prestigiosa prova do gênero no planeta.

Nunca, porém, pensou em colocar no papel suas aventuras esportivas. O convite da editora Companhia das Letras, pouco depois de ele ter escrito na Folha coluna sobre sua experiência na maratona do Rio, em 2013, deu o clique.

“Só escrevo sobre coisa séria. Por que não escrever um livro que seja mais divertido de fazer?”, perguntou-se ele, aceitando o convite. A experiência foi gratificante.

“Foi muito diferente escrever sobre corrida”, diz. “É mais leve, não tem nenhuma tragédia associada, é uma coisa boa que você faz. Você fica pensando em quanto prazer aquilo te deu. Acho que é um livro sobre esse prazer mesmo, contado de diversas formas.”

Drauzio descobriu o prazer da maratona aos 50 anos. Era um ex-fumante que havia largado o hábito 13 anos antes.

É a idade em que “começa a decadência do homem”, ouviu de um amigo. E decidiu provar o contrário: “Quem consegue correr 42 km deve ser capaz de enfrentar o mundo com mais otimismo e sabedoria”, pensou, ao começar a treinar para o novo desafio.

O otimismo conquistado com as passadas no asfalto e a disciplina imposta pela necessidade de treinar está nas páginas de “Correr”.

PÍLULAS

O livro é dividido em cinco partes: os primeiros passos, a história da maratona, as grandes provas de Drauzio, outras corridas pelo mundo e, por fim, alguns percursos feitos em São Paulo, em que narra deliciosos encontros que teve ao longo ou depois de treinos pelas ruas da cidade.

Tudo feito em capítulos muito curtos, como se o doutor entregasse ao leitor a maratona em pílulas. Não há receitas, mas cada bloco traz “intervalos” aos relatos aventureiros. Neles, Drauzio aborda questões de saúde.

O perigo – ou não – de correr maratonas, o índice de mortalidade na atividade, lesões musculares, impacto da corrida no coração e no sistema digestivo são temas tratados. A linguagem muda, o texto perde seu tom de conversa, emotivo, e fica mais assertivo.

As teorias mudam com o tempo. Mesmo assim, há médicos que dizem que correr maratona é um absurdo. “Faz mal para o ser humano”, afirmou um colega do autor, conforme relata no livro.”Como sou médico, acho que as pessoas esperam um pouco isso. Esse campo, quando você vai analisar com a perspectiva científica, vê que tem muito mito nessa área. Cada um tem uma teoria.”

Drauzio contesta a tese e dá seu próprio corpo como exemplo: “Com a atividade física, você tem uma qualidade de vida muito melhor. Eu tenho 72 anos, não tomo um remédio, não tenho nada, colesterol normal, glicemia baixa, minha pressão é 11 por 7; quando está alta, é 12 por 8”.

E ainda desfruta de um prazer sem conta: “Correr maratona é uma delícia, uma festa que tem várias fases. A excitação antes da largada, todo mundo tenso, medo, você não sabe o que vai acontecer. Tem as fases mais duras, em que você fica muito cansado, e aí vem o fim, a excitação do final. Cada vez que eu termino uma maratona me sinto feliz, é uma felicidade verdadeira mesmo”.

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