Treinamento / Corrida de Aventura / Aventure-se


Moda? Difícil alguém falar que as corridas de aventura estão na moda, mesmo porque é preciso muito mais que equipamentos e roupas bonitas para enfrentar três ou quatro dias de muito esforço.

As corridas de aventura estão ocupando cada vez mais espaço nos calendários das competições no mundo inteiro. O trabalho em equipe, o contato com a natureza, a exigência de técnicas de rapel e canoagem, além de corrida e bike, conquistam muita gente. Completar uma prova não é mais uma coisa de outro mundo e quem já tem o hábito de correr leva vantagem para se preparar e encarar uma. Foi-se o tempo em que corrida de aventura não era para qualquer um!" Esta frase pode ter sido verdade nas primeiras corridas de aventura no Brasil e no mundo. Mas hoje em dia já não é mais verdade. Com muita vontade e um pouco mais de dois meses de preparação, uma pessoa consegue encarar sua primeira prova", confirma Rafael Campos, capitão da equipe Mitsubishi Francis Hydratta QuasarLontra de corrida de aventura.

Hoje existem provas de aventura para todos os gostos e perfis, diferente do cenário de antigamente. "No início das corridas de aventura no Brasil, encarar uma prova era bastante difícil porque naquela época eram competições de longa duração, varavam dias e noites, como ocorreu com a Expedição Mata Atlântica (EMA) nos anos de 1998, 1999 e 2000. Muitos potenciais aventureiros se intimidavam em encarar uma prova pela complexidade existente e pelo grau de preparação física necessário", conta Campos. Em uma prova de um dia com grau de dificuldade fácil ou intermediário queima-se entre 5 e 10 mil calorias. Para se iniciar em uma corrida de aventura é preciso estar habituado com atividade física e ter uma base mínima, além disso será necessário experiência em provas menores para não correr riscos.

Benefícios
• Ganho no condicionamento físico;
• controle da pressão arterial;
• queda no colesterol;
• ajuda no controle da diabetes;
• ajuda no lado psicológico da pessoa;
• melhora na auto-estima;
• melhora a qualidade do sono;
• resulta no controle de fome e sede;
• ajuda no contato social e a resolver conflitos;

Provas longas e curtas
Antes de se embrenhar em uma corrida de aventura, os participantes devem levar em conta as características de cada prova. Existem dois tipos: as corridas de aventura curtas (menos de 24 horas de duração) e as longas (mais de 24 horas de duração). "Nos últimos cinco anos, diversas corridas de aventura têm sido oferecidas justamente para servir aos que ainda não possuem grande experiência e condição física. São as corridas de aventura de curta duração, geralmente beirando os 50 km, e que duram cerca de 5 a 8 horas. Esta é a melhor maneira de uma pessoa começar a participar das corridas de aventura e, então, apaixonar-se", explica Campos. Já existem empresas que oferecem todo o treinamento para as pessoas começarem sua participação em provas desse tipo. Até crianças entre 6 e 12 anos já estão aptas a participar dessas atividades. Esse tipo de competição, mais curta e rápida, não apresenta muitos riscos e serve para quem pretende se aprofundar no esporte, ganhar base e conhecer as corridas de aventura.

O interessante é que a corrida de aventura é uma competição multidisciplinar entre equipe e sem paradas obrigatórias. Em alguns eventos é considerada uma expedição com horário-limite. As equipes, normalmente, são mistas. Por definição, a corrida de aventura é uma união de modalidades numa única prova. Outra característica da prova é a troca constante de atividades, para que todas as modalidades propostas sejam cumpridas. Daí a importância do preparo físico e do espírito de equipe.

Podemos destacar os principais aspectos das corridas de aventura, que unem modalidades como orientação, trekking, mountain bike, canoagem e técnicas verticais:
• são praticadas ao ar livre, em meio à natureza, em locais remotos ou de difícil acesso;
• envolvem incertezas, que impedem planejamento abrangente;
• são praticadas em equipe;
• exigem capacidade e esforço físico e mental em diversas modalidades esportivas;

Esforço em equipe
Diferentemente da corrida, um esporte solitário e individualista, salvo as provas de revezamento, as corridas de aventura, em sua grande maioria, são realizadas em equipes mistas. Por isso a necessidade de se escolher bem os parceiros. "O respeito pelo outro deve ser prioridade; ter certeza de que aquela pessoa está com o mesmo objetivo que você – e isso deve ser muito bem trabalhado e esclarecido com muita honestidade – e, com certeza, está 'sofrendo' tanto quanto você, pois está dando o melhor de si", ensina Marina Verdini, da equipe QuasarLontra. Para a atleta, achar essa afinidade certamente não é uma tarefa fácil, mas pode ter certeza de que não é impossível."

Hoje posso dizer que as pessoas que se aproximam de nós com autenticidade são aquelas que merecem nossa amizade e com certeza fazem parte da mesma 'família de almas'. Tenha certeza de que, se você se esforçar para fazer para o outro aquilo que gosta para você mesmo, naturalmente essa troca vai gerar um relacionamento muito sincero e generoso. E você vai encontrar a fórmula para ter uma equipe campeã", diz, lembrando que na hora de montar uma equipe não se pode ignorar o fato de que a homogeneidade que envolve o preparo físico é indispensável.

A preparação
O atleta Rafael Campos aconselha o iniciante a pensar em dois pontos-chaves antes de iniciar a preparação:
1 – a preparação técnica, que permitirá ao atleta praticar as diferentes modalidades nas mais diversas situações;
2 – a preparação física, que irá dar condicionamento físico básico para se terminar uma corrida. "Na preparação técnica, o atleta deve procurar aprender alguns conhecimentos de técnicas necessárias para as provas. Os mais importantes são noções de navegação com mapa e bússola, de técnicas verticais (rappel, tirolesa...) e de remo", alerta Campos. Mas não se preocupe, o atleta avisa que existem cursos de algumas horas que já capacitam o iniciante a interpretar mapas e orientar-se por bússola. "A navegação é uma das principais características das corridas de aventura e não exige esforço físico, mas sim bastante concentração e rápido raciocínio." De acordo com Campos, outro curso de poucas horas vai tornar o atleta apto a fazer uso dos equipamentos para descer um rappel ou uma tirolesa. "E na parte de canoagem o curso permitirá que desenvolva uma remada de forma correta e na direção certa", afirma.

Dicas
• Nos treinos físicos simule situações que poderá encontrar nas provas;
• Corra também em terrenos irregulares, com aclives e declives, em terreno de pedra, areia, grama;
• Exercite-se com a mochila que for utilizar na prova;
• Nos treinos de mountain bike use trilhas com "singles tracks", subidas, erosões e lama;
• Reme e nade em lagos, rios, mares, com vento contra, com marolas, pois são situações encontradas nas provas.
"Se o atleta já tiver experimentado essas duficuldades em treinos, certamente se sentirá mais seguro e confortável ao se deparar com situação semelhante em uma corrida", explica Campos.

A preparação física é a que vai condicionar o organismo do aventureiro para que ele agüente praticar as diferentes modalidades esportivas envolvidas, nas horas que durarem a prova. "Diferente do que muitos imaginam, não é necessário uma dedicação exclusiva aos treinos. Uma prática diária, de cerca de 1 a 2 horas, acaba sendo suficiente para se preparar. Basicamente, os treinos serão focados em três modalidades: corrida, bicicleta e remo", conta Campos.

Fique atento antes de começar
• Tenha familiaridade com ao menos uma das modalidades.
• Prefira ter uma equipe com cada membro conhecendo algo sobre modalidades diferentes.
• Arrume um grupo com seu nível (homogêneo) para fazer a prova, isto é, com habilidades compatíveis.
• Faça cursos de cada modalidade.
• Fique atento com a navegação, não adianta chegar rápido ao lugar errado e ter de refazer o percurso.
• Leve comida e água suficientes para o percurso.
• No percurso tenha atenção para não sofrer nenhum tipo de trauma durante os trechos de corrida em trilha, subidas e declives etc.
• Proteja-se do sol.

Orientação em corridas de aventura
O sucesso nas corridas de aventura, diferentemente de diversas outras competições esportivas, não está diretamente relacionada somente a um excelente vigor e desempenho físico. Diversos são os fatores que contribuem para um bom resultado, como planejamento, trabalho em equipe, estratégia, rusticidade.... mas talvez a orientação seja o mais importante deles. Navegar pelas inúmeras possibilidades de caminhos, com o uso apenas de mapa e bússola (o GPS é proibido) não é uma tarefa simples. Tanto é que são poucos os "navegadores" existentes nas equipes de corridas de aventura. Há equipes iniciantes em que nenhum dos integrantes sabe navegar e, mesmo entre as mais experientes, é difícil de se encontrar uma que tenha dois ou mais navegadores.

Os atletas que se iniciam nas provas de aventura pensam apenas em treinar as modalidades envolvidas (que já não são poucas), como trekking, mountain bike, canoagem, técnicas verticais... e se esquecem de dar atenção à navegação. Por isso não é raro de se ver equipes com atletas extremamente fortes fisicamente não conseguindo nenhum resultado expressivo na aventura.

Para um bom desempenho da orientação, o navegador precisa estar sempre atento, ter "noção espacial", concentração e algumas técnicas. Entretanto, a grande pressão de levar sua equipe ao caminho correto acaba gerando um grande desgaste mental, muito maior que a dos demais companheiros de equipe. Assim, poucos se atrevem a assumir esta responsabilidade. Mas a navegação, não se trata de um "bicho-de-sete-cabeças", e sim de uma técnica, que exige treinamento e que precisa ser constantemente aprimorada. O navegador deverá aprender a trabalhar de forma conjunta com o mapa e a bússola.

O Mapa
Também chamado de carta topográfica, o mapa possui uma série de informações que deverão ser corretamente interpretadas pelo navegador: a escala, as coordenadas, declinação magnética, simbologia, as curvas de nível etc.

Escala: é a relação existente entre as dimensões encontradas na carta e seus valores reais no terreno. A escala mais comum em corridas de aventura é a 1:50.000, onde 1 cm na carta corresponde a 50.000 cm no terreno, que equivalem a 500 metros na realidade.

Coordenadas: são linhas imaginárias paralelas entre si, na horizontal e vertical, tomando-se como referência a linha do equador e o meridiano de Greenwich, nos mapas brasileiros acrescidos de uma constante. Em corridas de aventura, a mais utilizada é a coordenada UTM (Universal Transversa de Mercator) com valores expressos em metros. Um ponto é representado por dois números, (por exemplo, 324305 – 7393870). A interpolação destas duas coordenadas, uma no eixo horizontal e outra no eixo vertical, nos dão a localização de um ponto. Declinação magnética: para navegação devemos considerar a existência de 3 nortes: norte magnético, norte de quadrícula e norte geográfico. O norte magnético corresponde à direção para onde a agulha da bússola aponta, orientada de acordo com o campo magnético da Terra. Esta direção difere no norte geográfico ou norte verdadeiro (eixo de rotação da Terra). O ângulo formado nesta diferença é o que chamamos de 'declinação magnética". Curvas de nível: são traços que representam o formato e a altitude do relevo. Indicam a razão de declividade (grau de inclinação do terreno).

Simbologia: os símbolos representam, através de algumas figuras, os caminhos, trilhas, estradas, construções, escolas, vegetação, rios, cahoeiras...

A bússola
Consiste de uma agulha imantada, suspensa sobre um eixo, que gira livremente em um fluido. A agulha está sempre aponta para o norte magnético. Podemos fazer uso dela basicamente de duas maneiras:
Podemos "orientar o mapa", ou seja, deixá-lo posicionado de tal forma que as representações existentes nele estejam exatamente na mesma direção das encontradas no terreno real. Dessa forma fica mais fácil e correto de compararmos um com o outro.
Ou ainda, caso defina no mapa qual a direção pretende seguir (direção expressa em graus de 0o a 360o), com o uso da bússola é possível obter esta direção e seguir na rota correta.

É necessário estar familiarizado com esses dois instrumentos, para que cada vez mais o orientador sinta-se seguro em navegar. Dedicação também deve haver no navegador, para que cada vez mais ele aperfeiçoe seus conhecimentos. Uma boa dica de treino é a de subir em um morro que dê ampla visão ao redor, e de posse da carta topográfica do local ficar analisando o que existe a sua volta e ir comparando cada uma das representações da "carta' com o que se vê no terreno. Analise o formato do relevo, a vegetação, os rios, as trilhas e estradas até que se torne algo natural. Irá perceber que nem tudo que existe na realidade está representado no mapa. Assim, irá aprender a ponderar o que se deve procurar como referência quando estiver navegando.
E se errar não desista. Erros existirão. Analise os motivos que o levaram a cometê-los, e da próxima vez dificilmente irá repeti-los.

Por Aguinaldo Pettinati e Rafael Campos*
Fotos Fábio Andrade
 
*Rafael Campos é capitão da equipe Mitsubishi Francis Hydratta QuasarLontra de corrida de aventura. Praticante a mais de sete anos, ganhou diversos títulos nacionais e internacionais de corrida de aventura. Entre eles, campeão da EMA 99, Ecomotion Pró 2004 e da maior corrida de aventura-solo já realizada no Mundo, na Costa Rica.

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