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Fique em pé numa perna só e feche os olhos. Pronto. Para se manter equilibrado, você está usando sua propriocepção – a capacidade de saber onde está cada parte do corpo no espaço, a cada segundo.
Mesmo quando estamos parados, nosso corpo oscila e precisamos monitorá-lo o tempo todo para não cair. Quando corremos, nossa propriocepção torna-se ainda mais importante: estudos mostram que um atleta de 100m rasos tem de recuperar o equilíbrio cerca de 10 vezes por segundo. Se seu mecanismo de propriocepção estiver bem preparado, ele vai reagir rapidamente e terá mais energia para correr mais rápido e melhor. “Desenvolvendo a propriocepção, melhoramos a consciência corporal e a postura, o que por sua vez facilita a biomecânica da corrida e a torna mais eficiente”, explica Carlos Marcelo Pastre, professor do Departamento de Fisioterapia das Faculdades Adamantinenses Integradas e fisioterapeuta da Seleção Brasileira de Atletismo.
Ele desenvolveu um estudo, publicado em junho deste ano, sobre a influência da postura e do equilíbrio em corredores de alto rendimento. E concluiu que treinar a propriocepção não só torna a corrida mais econômica como evita hematomas e previne lesões. Por exemplo: tropeçou num buraco e está caindo à frente? É a propriocepção que dá ao cérebro as informações para recuperar o equilíbrio e te salvar de um belo tombo. Um corredor que negligencie essa parte do treinamento corre mais risco de se machucar.
Já aquele que faz exercícios para melhorar sua percepção do corpo no espaço pode desenvolver mais resistência, força, potência e coordenação. “André Domingos da Silva, Edson Luciano Ribeiro e Vicente Lenilson de Lima, velocistas da equipe brasileira de revezamento 4 x 100m, fizeram esse trabalho na preparação para Sydney e Atenas. Todos melhoraram seus rendimentos”, conta Pastre.
Troca de informações Os proprioceptores são órgãos sensitivos localizados nos músculos, tendões e ligamentos. Eles recebem e transportam para o sistema nervoso central informações sobre tensões, pressões ou distensões nas variadas partes do corpo, para que o cérebro decida como reagir e manter o equilíbrio.
Quando pisamos numa superfície irregular, por exemplo, os proprioceptores são estimulados e mandam um sinal para o sistema nervoso central, que orienta a musculatura envolvida na região a ajustar os tendões e ligamentos para não cairmos. Esse mecanismo de “informação – orientação – reação” acontece em todas as regiões do corpo a todo momento.“É um processo de consciência corporal, coordenação dos movimentos, ajuste postural e proteção das articulações”, explica Renato José Soares, fisioterapeuta do laboratório de Biomecânica da USP.
O equilíbrio do corpo envolve ainda nossos cinco sentidos – visão, audição, tato, olfato e paladar. “Todos os sentidos têm algum tipo de influência na propriocepção. A visão e audição são os mais diretamente ligados a ela”, diz Pastre. É por isso que olhos ou ouvidos tampados dificultam o equilíbrio.
Nas ruas Especificamente para a corrida, o treinamento de propriocepção traz alguns benefícios: :: fortalecimento: os exercícios são específicos para fortalecer os tendões e ligamentos; :: economia de corrida: gastando menos energia para se equilibrar, sobrará energia para a corrida. A postura correta permite que o movimento da passada seja mais limpo e preciso, ou seja, mais econômico; :: equilíbrio: os exercícios estimulam os receptores que percebem a posição do corpo. Também acostumam o cérebro a reagir mais rápido a um desequilíbrio; :: prevenção de lesões: as chances de lesão diminuem porque os tendões e ligamentos ficam mais fortes e porque os reflexos e o equilíbrio melhoram.
Treinando a percepção “O treinamento proprioceptivo é um complemento para o condicionamento e supre a falta de estímulos do corredor que só treina no asfalto”, diz Luciano D"Elia, preparador físico especializado em Treinamento Funcional. Ele recomendou os exercícios (ao lado) para melhorar o equilíbrio e preparar o corredor para irregularidades de terreno.
Algumas dicas do preparador físico: :: Faça os exercícios descalço. Os sistemas de amortecimento e estabilização dos tênis de corrida protegem os pés e articulações, mas também os deixam mais "preguiçosos". “Treinar de tênis, do ponto de vista proprioceptivo, não é tão desafiador quanto correr descalço. Como o corredor não deve treinar sem tênis, precisa compensar essa falta de estímulo através de exercícios proprioceptivos como os sugeridos aqui”, explica D"Elia. :: Quando os exercícios ficarem muito fáceis, aumente o grau de dificuldade fazendo-os de olhos fechados ou sem a ajuda dos braços para o equilíbrio. Desafie-se.A articulação mais trabalhada nos exercícios prescritos é o tornozelo, que absorve 60% do impacto gerado na corrida. Os outros 40% são transmitidos para as outras articulações do corpo. Pessoas que têm problemas de articulação devem consultar um médico antes de executar os movimentos!
Alongue Um estudo do departamento de Medicina Esportiva da Universidade de Ankara, na Turquia, investigou o efeito do alongamento e do aquecimento na coordenação motora, no controle postural e na propriocepção. As perdas de equilíbrio depois de alguns minutos de exercício foram menores nos grupos que fizeram alongamento e aquecimento antes do treino. Os cientistas acreditam que, por aumentar a amplitude de movimento das articulações, o alongamento torna os receptores mais sensíveis a mudanças de comprimento do músculo. As contrações conscientes e reflexas ganham mais velocidade e força, graças a uma transmissão neural mais eficiente. Tudo isso contribui para que você perca menos o equilíbrio.
Artigo extraído de revistao2.com.br
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