Treinamento/ Corrida/ O perigo da descida e da inclinação lateral


A biomecânica da corrida de longa distância difere da mecânica das demais provas de corrida. As distâncias percorridas, assim como as diferenças de superfície e as características da prova, exigem do atleta técnica e estratégias específicas. Por exemplo, o ângulo de inclinação do tronco dos corredores de longa distância varia entre 5 e 9 graus, enquanto nos meio-fundistas é de 15 graus e nos corredores de velocidade chega a 25 graus.

A execução correta dos movimentos é o segredo para uma corrida sem machucados. Quando a pessoa modifica de forma súbita as características das passadas, ela pode provocar o surgimento de lesões, associadas aos sintomas de fadiga.

Lesões
As lesões observadas com mais freqüência entre os corredores de longa distância são as de sobrecarga ou fadiga, tais como tendinite do calcâneo, fraturas de estresse dos ossos do pé ou da perna, tendinites na região anterior do joelho (tendinite patelar), na região interna ("tendinite da pata de ganso"), na região externa (tendinite do poplíteo), atrito da banda ílio-tibial na região lateral da coxa e a fascite plantar.

A investigação da causa desses problemas começa pelo estudo do apoio da planta do pé. Quanto mais pronado (tendência do pé para lateral interna) for o apoio, maior é a predisposição à sobrecarga na parte medial (interna) do pé e da perna. A compensação pode ser feita com tênis apropriado ou com o emprego de palmilhas específicas.

Descendo a ladeira
O treinamento freqüente em condições de declive também não é recomendado em termos médicos, porque coloca o atleta em situações de risco. A necessidade de controlar a velocidade em uma descida obriga a desaceleração do movimento. Para isso, o atleta desloca seu centro de gravidade para trás, faz o apoio com mais flexão plantar (com a ponta do pé para baixo) e sobrecarrega a região anterior do joelho, podendo provocar tendinite patelar ou mesmo lesões da cartilagem articular.

Correndo com inclinação
A corrida em terreno inclinado, como as margens laterais das ruas ou as praias de tombo, determina um apoio desigual dos pés durante a corrida. O pé mais próximo da margem baixa é forçado em supinação (desviado para fora) o que predispõe a lesões no compartimento interno do joelho do mesmo lado.

Portanto, como prevenção de lesões nas corridas de longa distância, devem ser respeitados os princípios básicos da biomecânica e do treinamento. Como médico, não recomendo treinar de forma exagerada em descidas ou terrenos inclinados. Pode ser que você não sinta dor na hora do treino, mas, se sentir, pare imediatamente. Caso perceba um incômodo depois, relate ao seu médico em que condições fez suas corridas para que ele possa fazer o diagnóstico correto.

Moisés Cohen é chefe do Centro de Traumatologia do Esporte da Unifesp, presidente da Sociedade Brasileira de Traumatologia do Esporte e diretor do Instituto Cohen de Medicina Esportiva.

Artigo extraído de revistao2.com.br

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