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Especialistas explicam a importância da brincadeira para o desenvolvimento infantil.E alertam: o tempo das crianças dedicado a esta atividade é muito menor do que deveria ser.
O tempo dedicado ao brincar está cada vez menor. Este é o resultado de um estudo recente realizado pela multinacional Unilever que procurou entender a importância desta atividade para o desenvolvimento das crianças. De acordo com a pesquisa, existem algumas explicações para o fenômeno. Uma delas é o fato de 84% dos pais concordarem que os filhos devem estudar mais do que brincar para se preparar para a vida. O resultado é o acúmulo de atividades executadas pelas crianças, principalmente nas classes AB, reduzindo o tempo dedicado ao lazer. E, apesar de isso ser mais sério quanto maior for a criança, o fenômeno também já começa a afetar os pequenininhos
A autora do livro Einstein teve tempo para brincar — Como nossos filhos realmente aprendem e por que eles precisam brincar, Kathy Hirsh-Pasek (Editora Guarda-chuva), revela que o incentivo para escrever seu livro surgiu quando percebeu que as crianças estavam se tornando adultos em miniatura. "Vi o tempo de brincar se esvaindo. Ainfância é muito preciosa e curta para que seja deixada de lado em troca de atividades de adultos", diz.
"Com o brincar, eles podem se tornar os pensadores que, no futuro, poderão se transformar em líderes no século 21", acredita. Para ela, além da falta de tempo dos pais e do fato de as crianças brincarem menos fora de casa, também há pressões sociais contra essa atividade, fazendo com que ela seja mal-entendida.
Brincar é aprender Apresidente da The Association for the Study of Play (em português, Associação do Estudo do Brincar), no Canadá, Ph.D. em Psicologia Social da University of Windsor, mestre em Estudos de Recreação e Lazer da Brock University, Ann Marie Guilmette, acredita que a explicação para o fato de o brincar ser mal compreendido está na crença de que a atividade é imatura e, muitas vezes, desrespeitosa. "A última coisa que muitos pais querem é um bebê que espirra comida e faz bagunça por toda a casa. Por isso, alguns acreditam que brincar é o caos. Mas deve-se permitir que a criança se desenvolva e cometa erros, se suje e faça sujeira.", diz Ann.
De acordo com Maria Ângela Barbato Carneiro, coordenadora do Núcleo de Cultura, Estudos e Pesquisas do Brincar e da Educação Infantil da Pontifíca Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na escola atual existe uma concepção de que o brincar não é uma atividade para ser levada a sério e somente os conteúdos pedagógicos devem ser trabalhados. "As pessoas não percebem que aprendemos por meio da brincadeira, então, essa atividade é ridicularizada e considerada um passatempo. Existe um mito de que quanto mais cedo a criança começar a acumular conteúdo, melhor", reflete Maria Ângela.
Segundo Ann Marie isso se reflete no modo de agir dos pequenos. Ela cita dados de um estudo que aponta que, até os dois anos de idade, as crianças sorriem cerca de 33 vezes por dia. Já aos 7 anos esse número cai drasticamente e, nos adultos, chega a acontecer uma ou duas vezes por dia. O brincar é livre de barreiras, de tempo e espaço, tem características de fazde- conta, é incerto e tem regras flexíveis que podem ser negociadas e não é um regime de treinamento", diz.
O corpo e a emoção Do ponto de vista físico, o ato de brincar tem importância primordial. Nos primeiros meses do bebê, por exemplo, influencia na habilidade de sustentação da cabeça. Os avanços acontecem quando a criança está deitada no berço e, brincando, começa a se movimentar ou tentar se levantar para alcançar alguma coisa. Já entre o sexto e o oitavo meses inicia-se o brincar cognitivo, quando começa a se desenvolver a idéia de perenidade dos objetos. "Antes, o bebê imaginava que o objeto que desaparecia da sua frente simplesmente deixava de existir. Ao completar um semestre a criança entende que, apesar do objeto estar longe da vista, ele ainda existe. Esta é a base para a capacidade humana de imaginar, lembrar do passado e prever o futuro", explica Ann Marie. No domínio mental, Maria Ângela explica que a brincadeira ajuda a desenvolver novas conexões e conceitos. "Aos poucos a criança começa a perceber o que são os objetos, adquire noção sobre o espaço físico que a rodeia, cores", diz. E Kathy Hirsh-Pasek defende que melhora a atenção e ajuda as crianças a integrarem informações de diferentes fontes.
No aspecto social e emocional a atividade também traz benefícios, pois é por meio da brincadeira que a criança expressa o que gosta ou não e estreita suas relações. "Brincar está mais relacionado com o coração e menos com a cabeça. Ou seja, como você se sente em relação a você mesmo. É ter a energia e empolgação para ficar vivo e as crianças têm isso", entende Ann Marie Guilmette.
O mundo do possível Até os dois anos o brincar é um processo individual. Depois disso, começa a percepção do outro e do mundo.
"O papel dos pais é oferecer estímulos, como colocar a criança em diferentes situações, correr, pular, levantar, pegar os brinquedos", explica Maria Ângela. Ela afirma que toda brincadeira tem conteúdo e, por isso, qualquer brinquedo é naturalmente educativo, basta adequar o tipo de brincadeira à idade da criança. "Assim, o aprendizado ocorre de forma mais espontânea e agradável, e surge na descoberta da criança", assegura.
Para Ann Marie, a melhor forma de brincar é aquela que traz engajamento ou que incentive o pequeno a tomar iniciativas e ofereça mais experiências. Ela defende a idéia de que os pais que fazem demais pelos pequenos podem acabar prejudicando o desenvolvimento porque não permitem que eles explorem ou descubram as coisas por si mesmos.
O brinquedo, por sua vez, serve de estímulo ao permitir à criança brincar com o próprio corpo ou qualquer outro objeto que encontre por perto.
"Nós podemos fechar todas as escolas e dizer que as crianças serão tão inteligentes quanto hoje.Por outro lado, se nós tirarmos o brincar das escolas, o contrário não será verdadeiro."
Ann Marie Guilmette, presidente da The Association for the Study of Play,Canadá
"Quem faz do objeto um brinquedo é a criança, não o adulto. Ele serve apenas de suporte para criar a brincadeira", afirma Maria Ângela Barbato Carneiro. Nesse sentido, o melhor brinquedo é aquele que traz mais possibilidades. "Quanto menos pronto ele estiver e mais oportunidade de criar, mais a criança irá aprender e se desenvolver", explica.
Mais tempo para diversão Para Ann Marie, é preciso aceitar o brincar na vida das crianças. Mas, para que isso aconteça, é preciso incluí-lo também na dos adultos. "Se os pais querem que seus filhos brinquem mais, eles mesmos precisam fazer isso com freqüência. Ou seja, no dia-adia devem se tornar brincalhões, já que os pequenos copiam o exemplo que têm em casa." Se isso é mesmo tão importante, então, como balancear com as demais atividades? Asugestão de Maria Ângela é a de que os pais respeitem o que a criança faz na escola mas, fora dela, incentivem os pequenos a aprender sempre um novo repertório de brincadeiras. Eles devem reservar um tempo para ensinar os filhos a brincar, sugerindo jogos e atividades, sentando com eles no chão, participando de todas as formas.
Entre um e dois anos escolha brinquedos que estimulem a movimentação das crianças, que estão começando a andar.Valorize também aqueles que sugerem bons hábitos.
Depois dos três anos a imaginação está a todo vapor. Peças que ajudem a criança a assumir um personagem ou criá-los vão fazer sucesso.
Entre dois e três anos a coordenação motora já está mais desenvolvida. Invista em brinquedos que, além de divertir,estimulem essa habilidade.
Por Fernanda Murachovsky
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