Notícias / A Volta da França de luto


Para o país que recebe o nome da Volta, há um consolo cínico de que nenhum dos ciclistas envolvidos neste circo recente é francês: os vilões são cazaques, dinamarqueses, alemães e italianos. Mas nenhum ciclista francês venceu a Volta desde Bernard Hinault, em 1985.

Nós ingleses podemos nos conter e lidar com o fato de que nenhum inglês venceu Wimbledon desde a Segunda Guerra Mundial e que faz mais de 40 anos desde nossa única conquista da Copa do Mundo de futebol, um jogo que inventamos. Mas a Volta pertence à França de uma forma bem mais profunda.

De fato, eu julgo histórias da França do século 20 pelo espaço que é dedicado à Volta. Por exemplo, Theodore Zeldin, o historiador de Oxford, recebe notas baixas por mal mencionar a prova. Por outro lado, dou nota alta para a maravilhosa coleção "Les Lieux de Mémoire" de Pierre Nora, com o ensaio de Georges Vigarello sobre a Volta, que a vê no contexto de uma história muito mais longa da república, e antes dela do reino. E uma das melhores coisas que Roland Barthes escreveu foi "Le Tour de France comme épopée", seu ensaio sobre a Volta como uma saudação épica de uma era mais antiga, com seus "sinais de coragem, lealdade, traição ou estoicismo".

Este é o topo do mercado intelectual ou cultural. Mas a Volta também foi cantada em inúmeras canções populares terríveis, de Perichot cantando em 1927, "Je suis allé / Les voir passer / Les 'Tours de France'..." a "Il a le maillot" de Marcel Amont em 1960.

O eclipse do ciclismo francês, combinado com esta enxurrada de escândalos de doping, pode parecer tornar a Volta em reflexo dos males e morosidade que supostamente afligem a França. Mas muitos dos que visitam a França podem se perguntar que motivo leva os franceses a serem morosos.

Eis aqui um país com rodovias e ferrovias soberbas, cidades e paisagens gloriosas e comida e vinho que não precisam do meu elogio. Isto sem contar um excelente serviço de saúde, ou uma produtividade industrial quase tão alta por hora trabalhada quanto a dos Estados Unidos (os franceses apenas não se importam em dedicar tanto de suas vidas ao trabalho quanto os americanos).

Talvez a Volta devesse olhar para a França como sua imagem, e não o contrário.

O jornal "France Soir" aumentou a melancolia ao transformar sua primeira página em um falsa anúncio de falecimento, relatando a morte da Volta "aos 104 anos, após uma longa enfermidade". Mas isto poderia ser dito da própria França, em 1940 ou 1958, quando o país parecia igualmente um caso terminal.

Não foi e esperamos que também não seja para a Volta. Ela certamente precisava de outro choque severo e o sofreu. Talvez Prudhomme esteja certo e a Volta deste ano não será o toque fúnebre, mas um renascimento.

*Entre os livros de Geoffrey Wheatcroft estão "Le Tour: A History of the Tour de France" e "Yo, Blair!"

Geoffrey Wheatcroft*
Em Bath, Inglaterra

voltar