A Volta da França de luto - 06/08/2007
"La mort du Tour" e "Arrêtez ce cirque" diziam as manchetes dos jornais de Paris, sem surpresa: "A morte da Volta" ou "Pare este circo" parecem respostas compreensíveis para o que mais de um jornal de Londres previsivelmente chamou de Volta da Farsa.
Após os crescentes escândalos e a vergonha ao longo de muitos anos, a Volta da França - um dos maiores eventos esportivos do mundo, um elemento central da cultura e da história social francesa no último século, e de certa forma um espelho no qual a França vê a si mesma - ruiu em completa e realmente ridícula ignomínia.
Foi prometida uma nova corrida livre de doping. O resultado foi uma enxurrada de ultraje, culminando com a expulsão de Alexandre Vinokourov, o favorito pré-corrida, após ser pego no exame antidoping, e depois com o afastamento do líder da corrida, Michael Rasmussen, fato inédito desde que a Volta começou em 1903.
Um forasteiro não considerado quando a corrida teve início, Rasmussen assumiu a liderança apesar da denúncia da autoridade de ciclismo dinamarquesa, que reclamou que ele não compareceu a dois exames antidoping antes do início da temporada. Ele explicou que estava no México, mas no mesmo período foi visto treinando em Dolomites. Rasmussen foi confrontado com as evidências por seus companheiros de equipe, que lhe disseram para voltar para casa.
Isto por si só foi uma ruptura bem-vinda com o código de silêncio predominante na corrida por tanto tempo, quando jovens ciclistas eram iniciados na cultura do doping.
Mesmo assim, Christian Prudhomme, o diretor da Volta, soou otimista quando disse: "A partida de Rasmussen foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos dias". Para outros, apenas confirmou o que o correspondente veterano do "International Herald Tribune", Samuel Abt, escreveu alguns meses atrás, de que a prova de ciclismo agora possuía a credibilidade da luta livre profissional.
Em intervalos regulares ao longo dos últimos anos, parecia que as coisas não poderiam piorar. No início de 2003, Marco Pantani foi encontrado morto por overdose de cocaína. Pantani venceu a absurda edição de 1998 da Volta, completamente ofuscada pelo escândalo de doping de Festina, foi afastado da prova no ano seguinte e viu sua carreira e vida entrarem em decadência até acabar.
Então há dois anos, logo depois do heróico sobrevivente de câncer Lance Armstrong ter vencido o recorde de sete Voltas, o "L"Equipe", o jornal esportivo francês, publicou a história de que a amostra da primeira vitória de Armstrong em 1998 tinha sido preservada. Agora, usando meios que não existiam na época, ela foi examinada e exibiu traços da droga EPO que melhora o desempenho, disse o jornal.
Antes do início do ano passado, vários ciclistas, incluindo Jan Ullrich e Ivan Basso, os favoritos, foram implicados em uma investigação de doping pela polícia de Madri e expulsos da Volta. Ela foi vencida por Floyd Landis após uma performance épica na última quinta-feira. Quatro dias depois de imitar Armstrong no pódio em Champs-Élysées, vestindo a "maillot jaune" (camisa amarela) durante a execução do hino americano, nós soubemos que, naquele mesmo dia, a quinta-feira heróica, seu exame mostrou um nível anormal de testosterona.
Era a primeira vez que um vencedor da Volta caía em desgraça e certamente as coisas não poderiam piorar. Mas então, há poucos meses, Bjarne Riis confessou. Um ciclista mediano, ele venceu a Volta de 1996 para surpresa geral, mas agora reconheceu que correu usando EPO.
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