Relato / Gilson Gomes / Um raio cai duas vezes no mesmo lugar


Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?

Oi pessoal, acho que alguns de vocês já tão cansados dos meus relatos. Vocês não acham que também os novos alunos merecem ser importunados com as minhas histórias? Bem, ano passado eu contei pra vocês quão fascinante e perfeito foi correr e completar a minha primeira maratona. Esse ano gostaria de contar pra vocês como um raio pode cair no mesmo lugar duas vezes.

Em 2006 a turma que estava se preparando para a maratona de Porto Alegre havia crescido. Isso tornou os longões mais prazerosos.. A própria estrutura da Stark para esses treinos melhorou sensivelmente e isso também ajudou muito. Porém, sempre que aferia meus treinos e os comparava com o ano de 2005 constatava que estava mais lento e sentia que sofria mais durante os treinos.

Não era um mistério pra mim, a razão disso em grande parte se devia a um problema na casa de meus pais, que abalou toda a família, e fazia eu me sentir impotente para resolver-lo. Com certeza isso afetou o meu desempenho nos treinos e psicologicamente me deu uma desanimada. Pensei inclusive em desistir de correr a maratona, mas vi que isso seria ainda pior, pois correr pra mim sempre funcionou também como terapia, e naquele momento eu precisava ainda mais dela!

Pra completar desenvolvi nesse ano uma intolerância aos carboidratos em gel e isso foi um fator complicador nessa equação. É sabido que correr 42 km sem reabastecer é muito perigoso. Resolvi que iria mesmo assim, não importava se estava mais lento, mais pesado, mais desanimado.... Ao final das contas eu precisava ir, não importava que tempo fizesse ou quem chegaria à minha frente, nem mesmo se chegaria ao final.

No grupo da Stark que se preparava, existiam sempre aquelas saudáveis brincadeiras e gozações que comumente fazemos uns com os outros sobre o desempenho nos longões. Claramente eu não estava conseguindo acompanhar a Rafa (que estava simplesmente voando), o Leo e o Iuri. Nós quatro fizemos os principais treinos juntos e tínhamos um desempenho mais ou menos parecido. Os outros maratonistas da Stark eram muito melhores que nós. Sempre fui fã das brincadeiras tanto de fazer como de ser alvo, pois acho que isso ajuda na integração do grupo e torna mais leve o ambiente. Por isso sabia que correr a maratona seria dar munição para as gozações, mas eu até que gosto e não seria isso que me faria desistir.

Estava inicialmente planejando completar a Maratona em quatro horas e quarenta minutos pois se em 2005 com toda a perfeição que foi aquele dia, eu havia terminado em 4:25’ horas. Não seria esse ano como todos os problemas que iria fazer melhor. No entanto, na noite anterior à maratona quando estávamos escolhendo as musicas do Mp3 para a corrida o Iuri me disse que eu deveria programar pelo menos o mesmo tempo. Quando fiz minha oração pessoal naquela noite pedi a Deus que me protegesse, não me deixasse passar mal com o gel e que me guiasse por aqueles 42.195 metros. Ou seja, pedi a Deus que me desse “um dia perfeito” pela segunda vez.

Na manhã seguinte parti confiante que tudo sairia bem. Minha característica é sempre começar num ritmo bem lento para só depois ir soltando, à medida que me sentisse melhor. Assim meus companheiros Iuri e Leo simplesmente dispararam na minha frente e já com cinco quilômetros eu nem os avistava (a Rafa infelizmente acabou não indo). Não me importei, segui o meu plano de acordo aos batimentos cardíacos e vi que estava correndo bem descontraído.

A corrida acontecia e a cada passada me sentia melhor, mais confiante e mais solto. Em nenhum momento me senti ofegante e vi que inclusive estava um pouco mais rápido que o planejado. O coração pulsando abaixo do esperado. Tudo corria de forma mais perfeita que o esperado e sempre que ia ingerir o carboidrato em gel fazia uma oração a Deus que não permitisse que me fizesse mal. Assim aconteceu e não senti nada. A cada parcial me surpreendia como aquela corrida estava fluindo e comecei a me convencer que mais uma vez Deus me levaria ao Monte Olimpo das corridas. Eu que há quatro anos atrás estava praticamente condenado á morte pelo sedentarismo e obesidade mórbida.

A atividade física que pratico tanto na corrida com no ciclismo tem como principal objetivo me dar uma qualidade de vida melhor no presente, mas principalmente no futuro. Sempre digo para minha esposa quando volto dos treinos: “hoje paguei mais uma prestação da saúde que quero ter quando tiver setenta anos”. Isso pra mim é fonte de grande alegria, pois com trinta e dois anos pesava 155 kg e no caminho que ia dificilmente chegaria aos cinqüenta. Por isso, apesar das brincadeiras, não ligo muito para o fato de estar mais lento ou mais rápido que alguém. O que realmente quero é praticar esportes para o resto da minha vida.

Voltando a maratona, quando chegou ao quilometro vinte e cinco comecei a avistar aquelas duas camisetas, uma branca e outra azul. Pensei comigo, são eles, o Iuri e o Leo. Como assim? Será que eles estavam quebrando? Estava num ritmo forte e me aproximava deles com rapidez, quando senti que iria passá-los comecei a pensar na piada que diria no momento da ultrapassagem. Naquele momento senti Deus falando no meu coração: “Gilson, não faça isso, essa corrida está acontecendo dessa maneira porque é um presente meu pra ti, se tu fizeres isso eu te tirarei o presente, como fui eu que te dei, eu posso te tirar”.

No quilometro vinte e oito eu os alcancei, mas não os ultrapassei. Corremos juntos os últimos quatorze quilômetros e foi uma delícia. Um ajudava ao outro, incentivava partilhando água, gatorade, etc. Com certeza cada um de nós três fizemos um tempo melhor do que se tivéssemos corrido separados naqueles últimos quilômetros. Quando um puxava os outros acompanhavam e assim fomos até o final. Nos quinhentos metros finais desabei a chorar e a agradecer a Deus aquele presente tão especial. Chegamos juntos com 4:20’ horas. Havia baixado meu tempo em mais de cinco minutos. Aconteceu meus amigos, Deus tinha me dado mais “um dia perfeito”, na mesma Porto Alegre. Exatamente um ano depois um raio havia caído no mesmo lugar, pela segunda vez!!!

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