Relatos / Cacá Vitoriano / Meia Maratona BSAS


“EL DIA EM QUE MI QUEIRAS’’

A promessa era a melhor possível. Uma prova em uma cidade charmosa, clima entre 8ºC e 12ºC, feriadão de 7 de setembro,Real valorizado,bons bares e restaurantes para saborear os Malbecs e Camerenes de Mendonza... . Rapidamente formamos um grupo de uma dúzia de amigos, dez inscritos na prova. A promessa era a melhor possível .

Era. A Meia Maratona de Buenos Aires guardava algumas surpresas dignas de um Bolero do Gardel.

Começou com a temperatura. Todos os dias, na semana anterior a prova, alguém consultava o clima e informava: “A previsão aumentou 1ºC’’ e todo mundo mudava um pouco as roupas da mala. A saída de Fortaleza atrasou muito, a escala em Natal mais ainda e perdemos a conexão em São Paulo. O remédio foi pegar outro vôo no final da noite para Buenos Aires, e chegar de madrugada dando adeus aos planos de descanso e relaxamento antes da prova.

No sábado, seguimos para pegar o kit à tarde em uma academia do outro lado da cidade.Após mais de uma hora em pé em uma fila só de brasileiros-quase 900 na prova-(Sim, os Argentinos não pegavam fila e eram prontamente atendidos. Brasileiros, em pé no sol.)

Depois com kit na mão fomos procurar a “Feira dos Produtos Esportivos”, conforme prometido no site da prova, afinal ficamos maravilhados com a Feira da Meia de Orlando ,que corremos no ano passado, onde compramos muitos tênis e acessórios.

– Que feira?respondeu um Hermano Argentino. Logo descobrimos que a tal “feira’’ era nada mais, nada menos que quatro camelôs com produtos espalhados sobre a calçada da academia. Não era piada.

E o pior ainda estaria por vir.

Ao olhar o mapa da prova, um detalhe: apenas quatro pontos de hidratação (5Km, 10Km, 15Km e 20Km). Pouco se comparada a Meia do Rio, mas tudo bem dava para repor o líquido adequadamente.

O domingo começou para mim meio atrapalhado. Perdi as lentes de contato e só encontrei ao lado da casca da banana que usei no shake (Sim, as recomendações da Ana Cristina Wolf atravessam fronteiras). Como não dava mais tempo para colocar, corri sem tal imprescindível acessório.

Na largada, uma grata novidade. Encontrei com o Hermaninho Frank, nosso ex-companheiro de Stark que estava vindo de mochila da Europa sozinho e juntou-se ao grupo.

A temperatura já estava entre 20ºC e 25ºC. Nada para amedrontar, mas bem diferente de correr aos 8ºC como programado. Após a largada, nos 5Km, a grande surpresa: o ponto de hidratação não hidratava. Não tinha água. Não era a falta da lente de contato.Não havia um mísero copo,garrafa,nada de água... Aliás já não tinha quase ninguém do lado das mesas.Nem ponto,nem hidratação. Isso mesmo., A prova não tinha água. Mas como? Até hoje não explicaram direito.

Começou a bater um desespero. Afinal como seria dali pra frente? Simples,pensava eu,vou correr sem água. O que fazer com os sachês de carbohidratos? Simples,pensava eu, vou guardar no bolso. Qualquer corredor principiante sabe que tomar carbohidrato sem água, é desidratação na certa.

Daí pra frente foi um sufoco. Gente brigando nos supostos postos de hidratação, parando para comprar água nos bares, bebendo nos espelhos d`agua dos prédios ou nas fontes das praças. Um inferno. Na segunda metade das provas várias pessoas, deitadas no chão, sem assistência médica, que aliás era praticamente inexistente.

Como me virei? Bem depois de recuperar meu chip no Km 7 (isso mesmo, como se não bastasse a falta da lente e principalmente a de da água, o chip soltou do tenis e só consegui recuperá-lo por que um japonesinho me ajudou encontrando junto ao meio fio ;parei aí para coloca-lo desta vez bem preso. Bebi em uma fonte,pedi goles de quem estava correndo com squeeze, e finalmente consegui o resto de uma garrafinha com a Katherine,filha de um amigo que me deu no Km 13.

Daí em diante passei a correr rápido, muito rápido,agarrado com a garrafinha,sem pensar em nada . Afinal consegui completar a prova em 2h5min, um tempo que achei ótimo,e acreditem foi a prova que cheguei mais inteiro.

Após cruzar a linha de chegada, o mesmo anjo que me deu a água no Km 13, veio com uma noticia: a Yrma tinha torcido o pé por volta do Km 10, estava com muita dor e corria mancando. Resultado: peguei a medalha e não tive escolha: voltei a correr o percurso de volta na contra-mão. Os fiscais não entederam nada.

Encontrei-a no Km 17. Vi que dava para ela terminar e voltei mais uma vez ditando o ritmo e dando o apoio moral até linha de chegada, coisa que ela fez bravamente,embora tenha passado quase dois dias sem andar, depois da prova, tamanha a dor. E eu tinha acabado de inventar a Meia Maratona de 29Km (21 + 8).

Depois veio a pergunta inevitável: valeu a pena? Valeu e como valeu.. Na hora do sufoco lembrei de uma frase do grande arquiteto americano do início do século XX Frank Lloyd Wright: “As dificuldades são nossos melhores amigos’’. O esporte é um retrato do que enfrentamos na vida, nada é perfeito, nada é 100% temos que buscar dentro de nós os mecanismos não para discutirmos obstáculos, sim como contorná-los.E muitas vezes,de última hora.

De volta ao Brasil, meu filho Lipe ao ver a foto que ilustra esta matéria do final da prova disse: “Olha pai, não foi só o Dunga que se vingou dos Argentinos. Tu também- olha a cara desses argentinos que chegaram juntos contigo,estão todos mortos.Tu tá inteiro ,rindo”.

Era verdade, mas ainda tinha que correr 8 Km na contra mão para buscar a mãe dele.

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