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Expedição Patagônia -Tierra del Fuego - Argentina 2007 Comodoro Rivadavia - Ushuaia -1.431Km
Fico muito orgulhoso que Deus tenha escolhido um cearense para integrar o rol dos pouquíssimos ciclistas do mundo a percorrer as terras selvagens da Patagônia Atlântica.
Compartilhar com os amigos um pouco da experiência vivida durante a Expedição Patagônia – Tierra del Fuego – 2007 é a única forma de agradecer a todos que de alguma maneira contribuíram com o sucesso desse evento que exigiu muita determinação, desprendimento e fé.
Um Grande Desafio em Silêncio Um grande e desafiante Sonho. Foi assim que se apresentou o desejo de percorrer as terras selvagens e longínquas da Patagônia Atlântica e que me consumiu por aproximadamente dois anos.
Realizar sozinho a Expedição Patagônia – Tierra del Fuego – 2007 foi a principal e a mais difícil decisão a ser tomada, por vezes amigos se interessaram em me acompanhar nessa empreitada, mas sonho é uma dádiva particular e única, assim, decidi enfrentar sozinho os meus mais profundos temores e conhecer os meus limites. Ficar só e em silêncio é também uma necessidade humana que nos faz evoluir espiritualmente e desenvolver o autoconhecimento através da meditação, situação que nos leva a valorizar ainda mais a nossa família e a mostrar que a vida é bela e deve ser vivida com prudência e equilíbrio.
A Concepção do Projeto A realização do projeto foi se concretizando passo-a-passo, foram estudos preliminares acerca da viabilidade financeira, operacional e emocional, onde foi possível conhecer todos os detalhes envolvidos no objeto da expedição, pesquisas e mais pesquisas foram realizadas na literatura disponível, principalmente na internet.
O incentivo ao esporte é um dos grandes anseios da classe esportista. A política de incentivo ao esporte no Brasil ainda estava restrito a certos Estados que brilhantemente tomaram a iniciativa e assumiram a responsabilidade social de estimular à prática esportiva como um único mecanismo de inclusão social, tirando os jovens das ruas, combatendo a violência, ao uso de drogas e de todos os outros malefícios que afastam os potenciais atletas do sucesso.
O Governo Federal em 2007, atendendo a uma reivindicação de mais de uma década, sancionou a Lei de Incentivo ao Esporte nº. 11.438, de 29/12/2006, de autoria do deputado cearense Bismarck Maia, ainda modesta, que prevê um teto de 1% de renúncia fiscal de parte do imposto de renda devido para investimento em projetos esportivos.
O Governo do Estado do Ceará, através da Secretária do Esporte e da Juventude - SEJUV, mais uma vez saiu na frente e seguindo uma tendência nacional de incentivo ao esporte, firmou esse inédito convênio para viabilizar a realização da Expedição de Ciclismo Patagônia – Tierra del Fuego – 2007.
O Ceará, terra da luz, possui um perfil perfeito para prática dessa atividade esportiva, com seus atrativos naturais, históricos e culturais distribuídos ao longo de estradas bem conservadas e sinalizadas, ricas em trilhas, que conta com um povo simpático e hospitaleiro.
Diário de Bordo O meu pequeno Diário de Bordo procura apresentar de forma sucinta alguns relatos da expedição, quem sabe os detalhes virão em uma futura obra, afinal de contas, uma expedição dessa natureza possui muitas experiências a serem relatadas e que servirão para futuros aventureiros que pretendem desafiar a patagônia selvagem. O início na cidade argentina de Comodoro Rivadavia, localizada na província de Chubut, Capital Nacional do Petróleo, foi marcado por uma noite mal dormida, fruto do cansaço da semana que antecedeu a viagem, horas de aeroporto e principalmente a ansiedade e os temores pelo início da Expedição Patagônia – Tierra del Fuego – 2007. Pronto para realizar o maior desafio de minha vida, dei início à tão sonhada viagem descendo a Calle Belgrano e logo à direita pego a Ruta Nacional 3, aquela que me levaria literalmente ao fim do mundo. Iniciada a expedição já comecei a enfrentar as primeiras dificuldades, o fluxo intenso de veículos e às obras de recuperação realizadas nos primeiros 12 km de Comodoro Rivadavia até próximo a Villa Rada Tilly dificultou muito as minhas primeiras pedaladas, cheguei a Caleta Olívia no final da tarde. Caleta Olívia, distante 79 km de Comodoro Rivadavia é a primeira cidade da província de Santa Cruz, com aproximadamente 36 mil habitantes e que tem um belo monumento enigmático de 10 metros de altura chamado de “El Gorosito” que foi erguido em homenagem aos petroleiros. Agora o destino é Fitz Roy, foram mais 87 km de muito esforço, longas subidas e a chuva fina que me perseguiu, muito vento que me acompanhou por toda a viagem, nesse momento, lembro dos relatos dos viajantes que por lá estiveram, motoristas, motociclistas e ciclistas, todos, sem exceção, consideraram o vento como o grande vilão.
Meu cuidadoso Amigo Bozoka, motociclista viajante e experiente estava muito preocupado com o vento, pois já sabia o que eu iria enfrentar, conselhos não me faltaram e isso foi muito bem aproveitado durante toda a viagem. A cidade argentina de Fitz Roy, localizada na província de Santa Cruz, que leva o nome do capitão do HMS Beagle, navio da Real Marinha Britânica, é uma pequena cidade base que serve como abastecimento para os aventureiros que rumam para o Sul da Patagônia.
Sonho em chegar a Puerto San Julian e me fortalecer com as águas do oceano atlântico que deixei em Caleta Olívia, pois, como mergulhador, o mar faz parte da minha vida e motiva a continuar, mas não é tão fácil, pois tive que pedalar mais de 255 km com as condições climáticas das mais adversas. Passo pelo pequeno vilarejo de Três Cerros e vou rumo a Puerto San Julian, cidade que ficou marcada pelo grave acidente ocorrido entre dois veículos que se chocaram de frente, levando a óbito quatro argentinos, dentre eles uma criança, o que me revelou logo no início as surpresas potenciais da bela e perigosa patagônia.
  
Passados 421 km desde a cidade de Comodoro Rivadavia, já superadas as dificuldades físicas e emocionais, o ambiente da patagônia atlântica se mostra cada vez mais cansativo, a vegetação não sofre alterações e o vento continua maltratando. A chuva fina não aparece com tanta freqüência, mas, quando chega em companhia do vento, que sempre é forte nessa época do ano, a sensação térmica reduz ainda mais a temperatura e dificulta muito as pedaladas.
Com o novo destino traçado, vou pedalando em busca da pequena e organizada cidade argentina de Comandante Luiz Piedrabuena, distante 552 km do início da sofrida, mas prazerosa Expedição Patagônia – Tierra del Fuego, servindo de apoio as aventureiros da selvagem patagônia.
Enfrentando novas subidas lembrei daquelas de Fitz Roy, mais sigo pensando no meu novo e distante destino, Rio Gallegos, até lá foram mais 240 km, totalizando 792 km, solidão por mais três dias, mas penso muito no descanso merecido e na boa comida que com certeza terei.
Já não sofro tanto com a alimentação adquirida ao longo do caminho, macarrão, pão, atum, chocolate, alfarjores, leite, queijo, mel, barras de cereais, power gel, fiel repositor energético, e o complexo vitamínico que tomo diariamente para ajustar as vitaminas e sais minerais possivelmente alterados, garantindo a minha disposição física e mental que tanto preciso.
As dormidas na carpa (barraca) já não me maltratam muito desde que nivelei bem o terreno com meu isolante térmico e meu saco de dormir, pois as dores nas costas estavam constantes. Repousar na carpa após um dia de pedalada parece impróprio, mas o cansaço é tanto que parece que estamos em um hotel cinco estrelas. O ambiente nos presenteia com o som noturno rico em detalhes, o vento constante que movimenta a natureza e o som dos animais abençoa o sono tão merecido. Chegou então o momento do sonhado descanso, Rio Gallegos, capital da província de Santa Cruz, localizada as margens do Rio Gallegos, última grande cidade antes de chegar ao belo e famoso Estreito de Magalhães no Chile.
Desde o início da viagem a maior parte do tempo foi possível pedalar pelo asfalto que se encontrava em boas condições, contudo, fui obrigado por inúmeras vezes optar pelo rípio(cascalho), questão de segurança, pois não era possível manter-se equilibrado no asfalto com o vento sempre constante e forte, mesmo pedalando pelo rípio os picos de rajadas de vento me arremessavam sem controle para o centro do asfalto, situação de extremo perigo, pois caso encontrasse os velozes veículos seria fatal. Pedalar inclinado para compensar o forte vento foi a única maneira de ir em frente e em segurança.
É hora de transitar pelas aduanas argentinas e chilenas, ocasião em que foi possível conhecer outros aventureiros, eram veículos de quatro e duas rodas preparadas para a patagônia selvagem, inclusive encontrei um casal de ciclistas austriacos que pedalavam há 2 anos, a bicicleta era adaptada com 2 selins, o casal era bastante simpático e estava programando pedalar por mais 1 ano. Continuo o meu caminho e chego no famoso e histórico Estreito de Magalhães, atravessar o mar agitado e de difícil navegação foi uma emoção indescritível, a grande balsa levava aventureiros e turistas com destino a Ushuaia, todos observavam atentos os detalhes da maior passagem natural navegável entre os oceanos Atlântico e Pacífico, que detém uma posição geográfica privilegiada por fazer parte de rota do transporte marítimo internacional. O navegador Fernão de Magalhães foi o primeiro europeu a navegar pelo estreito no ano de 1520. O Estreito de Magalhães faz parte do domínio territorial do Chile desde o dia 23 de março de 1843. Deixando o Estreito de Magalhães, fui em direção a cidade de Rio Grande na Tierra del Fuego, cidade de aproximadamente 53 mil habitantes, localizada as margens do oceano atlântico, conhecida com a capital internacional da Truta, já pensando em saborear a famosa truta marrom.
Após a cidade de Rio Grande, distante 1146 km de Comodoro Rivadavia, segui com destino ao fim do Mundo, Ushuaia, bela cidade que busco há aproximadamente dois anos, passando ainda pela pequena cidade Tolhuin e o famoso Lago Fagnano, a paisagem cansativa e repetitiva da estepe patagônica agora deu lugar às montanhas de picos nevados, o ambiente e o clima se transformam e a magia do lugar começa a tomar conta de mim.
Chegar ao fim do mundo é pura emoção, chorar é permitido. Ushuaia, capital da província argentina de Tierra del Fuego, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul, possui aproximadamente 45 mil habitantes. A cidade mais austral do mundo, localizada sobre o limite setentrional do Canal de Beagle, foi fundada no dia 12 de outubro de 1884, sendo considerada a porta de entrada para a Antártica.
A busca pelo final da ruta nacional 3 continua, após um dia de descanso no albergue Free Style, sigo rumo ao fim do mundo percorrendo o Parque Nacional Tierra del Fuego em direção a Bahia Lapataia, onde finda a RN 3, extremo sul do continente americano, ponto que fica a 3.063 km de Buenos Aires, 17.848 km do Alaska e adiante 1.000 km apenas a Antártica, o tempo parou e pude contemplar a magia do lugar, choro e lagrimas não me faltaram, afinal de contas chegar ao fim do mundo de bicicleta é milagre concebido a poucos e o teimoso cearense que enfrentou muitas dificuldades para a realização do sonho estava no rol dos abençoados por Deus.
Foram 23 dias percorrendo 1.431 km de pura emoção e prazer.
O que a Patagônia Ensinou? A solitária Expedição Patagônia – Tierra del Fuego 2007 foi uma cicloaventura selvagem e dificuldade elevada, a variação climática, os fortes e constantes ventos, a solidão e o frio me levaram próximo ao limite físico e emocional, mas por outro lado, provaram que um bom planejamento associado ao equilíbrio de decisões leva qualquer aventureiro ao sucesso. A selvagem Patagônia me ensinou que o trabalho em equipe é fundamental, a determinação na busca do sonho e a chave do sucesso, a humildade é essencial, o respeito à natureza é necessário para ter harmonia e a fé é imprescindível.
Espero ter colaborado com os sonhos de outros aventureiros
Artigo extraído de zivaldojr.com.br
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